quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Jango e Tancredo: Famílias tentam esclarecer mortes dos dois ex-presidentes do Brasil


No último dia 8 de fevereiro, os filhos do presidente da República eleito indiretamente em janeiro de 1985, Tancredo Neves, entraram na Justiça solicitando o direito de saber todas as informações e conhecer todos os detalhes sobre a morte do seu pai, que foi internado um dia antes da data marcada para sua posse como primeiro chefe de Estado brasileiro civil depois de mais de 20 anos de governo militar. 

Tancredo Neves
Tancredo morreu no dia 21 de abril daquele ano, sem ter tempo de envergar a faixa de presidente da República, gerando grande comoção nacional. 


Os filhos de Tancredo entraram na Justiça Federal de Brasília com um pedido de habeas data para que os Conselhos Federal e Regional de Medicina do Distrito Federal disponibilizem para a família todas as sindicâncias, inquéritos ético-disciplinares, documentos e depoimentos dos médicos a respeito do atendimento feito a Tancredo a partir da sua internação por causa de fortes dores abdominais no Hospital de Base, na capital da República, naquele 14 de março de 1985, até o seu atestado de óbito por infecção generalizada pouco mais de um mês depois, emitido pelo Instituto do Coração (Incor) do Hospital das Clínicas de São Paulo, para onde havia sido transferido no dia 26 de março.

"Mal diagnosticado e mal operado" - Desde que Tancredo Neves morreu surgiram muitas teorias da conspiração que dão conta de um suposto assassinato daquele que deveria ser o “presidente da redemocratização”, título informal que acabou ficando com o vice na chapa de Tancredo no colégio eleitoral, José Sarney. 

Tancredo, com médicos, no Hospital
O que move os filhos de Tancredo nesta ação de habeas data, entretanto, parece ser a responsabilização dos profissionais que atenderam Tancredo na noite em que ele passou mal por um suposto caso de erro médico. “O habeas data médico do presidente Tancredo Neves possibilita definir as responsabilidades dos médicos envolvidos nesse caso. É também uma reparação histórica para aqueles momentos difíceis que a sociedade brasileira teve que enfrentar, quando o presidente, o líder da redemocratização e primeiro civil a ser eleito depois de 21 anos de ditadura, foi mal diagnosticado e mal operado (sem necessidade) às vésperas de sua posse na presidência da República”, disse a família Neves em comunicado. Entre sua internação e sua morte, Tancredo foi submetido a sete cirurgias. A primeira delas, a que seus filhos ora colocam em xeque, aconteceu ainda no Hospital de Base de Brasília, antes da sua transferência para o Incor.
João Goulart
Jango: vítima da Operação Condor? “Os documentos, junto com os prontuários médicos já em posse da Família Neves, fecham esse trágico capítulo da história brasileira, além de recuperar a verdade médica, ética, sobre as responsabilidades dos médicos envolvidos no atendimento prestado a Tancredo”, ressaltam ainda os familiares do ex-presidente.

Tancredo Augusto Neves, filho de Tancredo, relata que o pai chegou a ser levado para o centro cirúrgico errado e que, passando mal, ele teve que circular pelos corredores do Hospital de Base de maca e coberto por um lençol para não ser reconhecido pela multidão que lotou o lugar, onde não havia qualquer tipo de segurança ou controle. Quando enfim o presidente chegou à sala de cirurgia certa, havia até políticos trajando roupas de médico para assistir à operação. O pedido de habeas data sobre a internação e morte de Tancredo acontece no momento em que o governo federal anuncia apoio à luta de uma família pelo esclarecimento sobre a morte em 1976, no exílio, de um outro ex-presidente da República, João Goulart. Oficialmente Jango morreu de ataque cardíaco, mas seus familiares acreditam que ele pode ter sido envenenado, vítima da Operação Condor, aliança entre regimes militares do Cone Sul para coordenar a repressão no Brasil, Argentina, Uruguai, Chile e Paraguai.

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