sábado, 14 de fevereiro de 2015

'TODO' MUNDO NÃO É JORNALISTA

Por Norma Couri
Em 1897, o New York Sun lançou o editorial que virou um clássico – “Não, Virginia, Papai Noel não existe” – em resposta à menina de oito anos que escreveu uma carta ao jornal duvidando da existência do velhinho. Hoje meninas de oito anos publicam blogs, criam sites, e têm a certeza de que são jornalistas. Se gravam uma resposta na rua, transcrevem, titulam e, ao contrário da dúvida de Virginia, acreditam que são jornalistas. Elas e o resto. Basta entrar na internet, aprender algumas regras, engolir manuais de jornalismo e administração, munir-se de uma empáfia incomum e sair publicando, contaminando corações e mentes. No extremo, chega-se a Louis Bloom (Jake Gyllenhaal) no filme O Abutre.
Em O Abutre (Nightcrawler, 2014), do americano Dan Gilroy, o ex-ladrão de ferragens se deu bem com a editora louraça de TV de Los Angeles, Nina ( Rene Russo), onde pretendia trabalhar. Era um sociopata, mas cumpria as exigências do jornalismo da rede: trazer imagens chocantes e sensacionalistas de acidentes.
No mundo do cada um por si da internet, Louis Bloom descobre que cinegrafistasfreelancers se ligam na frequência de rádios da polícia e correm para filmar o sangue fresquinho no local do acidente. Simples arrumar uma filmadora furreca e correr atrás. Com métodos escusos para passar à frente da concorrência, suas imagens chegam primeiro, vendem, o público aumenta, e agora é alimentar a sede de horrores da emissora e, supostamente, do público. Louis Bloom ganha cada vez mais para dar um upgrade no equipamento profissional, colher mais sangue e descobrir que a ética só atrapalha. Provoca um acidente do colega que está no seu caminho, arma uma emboscada para o subordinado que quer ganhar mais, filma o acidente do primeiro e a morte do segundo, começa a interferir na cena dos crimes para torná-los mais... jornalísticos. Torna-se um “empreendedor” sem ética porque assimilou na internet um manual de autoajuda ao empresário – comum nos dias atuais. É ao mesmo tempo patrão e empregado, como se exige do jornalista hoje em dia, sem limites para vencer desde que publiquem seu material.
O abutre é um jornalista?
Charles Tatum (Kirk Douglas) em A Montanha dos 7 Abutres(Ace in the Hole, 1951) de Billy Wilder, é um jornalista que pede emprego ao dono de um pequeno jornal de Albuquerque, Novo México, se gabando: “Conheço os jornais como a palma da minha mão. Eu posso escrever, editar, imprimir, empacotar e vender. Eu trabalho com pequenas notícias e grandes notícias e, se não houver notícias, vou à rua e mordo um cão”. Quer fugir do tédio do seu trabalho diário, e descobre que a glória de uma grande reportagem está na cobertura do drama de homem preso numa mina. Retarda o salvamento para fazer o caso render e vender mais jornais, as proporções do caso tornam suas matérias foco do público, o homem preso na mina é o que menos importa. Wilder se baseou numa história real, de 1925.
Produção da morte

Cidadão Kane, de Orson Welles (1941), ensina como se faz um grande jornal com falcatruas, corrupção e uso do Quarto Poder e do dinheiro para criar um monopólio de notícias, tudo em nome da avidez do fictício Charles Foster Kane, na verdade o magnata da imprensa William Randolph Hearst.

Rede de Intrigas (Network, 1976), de Sidney Lumet, é de novo a tentativa de alçar maior audiência por um locutor (Peter Finch) demitido pelo baixo ibope do noticiário. No vale-tudo do circo da notícia ele anuncia seu suicídio ao vivo, o público se interessa, a rede retém o locutor que se transforma numa espécie de profeta louco com os traços da audiência cada vez subindo mais. Equipe, público, locutor, editora (Faye Dunaway), todos são reféns do alucinante processo de popularidade e $$$ na telinha.
Se o cinema é modelo para aspirantes a focas, vale a pena conferir Boa Noite, Boa Sorte (Good Night, and Good Luck, 2005), direção de George Clooney, sobre o jornalista de TV Ed Murrow (interpretado por David Strathairn) que peitou a comissão de caça às bruxas presidida pelo senador Joseph McCarthy, obcecado em perseguir comunistas. Mas para chegar a ser Edward R. Murrow (1908-1965), um dos maiores jornalistas americanos, foi preciso estar no topo da lista dos correspondentes da Segunda Guerra, fazer locuções isentas, honestas, íntegras. E, claro, ter responsabilidade civil, introjetar regras básicas do papel do jornalista numa sociedade, ser culto e informado o suficiente para não engolir qualquer sopro de notícia voando de qualquer lado, ser “rodado” o bastante para que a experiência não permita nem que acredite no sucesso por causa de uma matéria, nem na derrota em nome de outra.
O que o cinegrafista de O Abutre criou foi a indústria da produção da morte, como escreveu o filósofo Renato Janine Ribeiro (Valor, 23/1/2015). O que vale para a editora de TV vivida por Faye Dunaway em Rede de Intrigas, para o repórter ambicioso na pele de Kirk Douglas em A Montanha dos 7 Abutres,e explica a ambição do magnata Charles Kane em Cidadão Kane.
Atrativo incontrolável
A imprensa começou a ser retratada no cinema nos anos 1930 e nunca mais parou. Quem vai fazer a triagem neste mundo do Jornalismo em Mutação, como escreveu Adriana Barsotti (Insular Livros, 2014), onde a imprensa se torna um negócio empresarial e minimiza a importância dos valores éticos e das normas deontológicas? Numa entrevista que a autora concedeu à rede CBN na semana passada, ela dizia que postagens diárias de blogueiros seriam suficientes para preenchera a revista Time por mais de 770 anos. E concluía:
– O jornalista perdeu o monopólio da informação.
Não, Virginia, nem todo mundo é jornalista, nem toda notícia é verdadeira, a internet não resolve tudo e, atenção, o jornalista não perdeu o monopólio da informação correta. Ele foi mergulhado num mar de desinformação ilustrado por 250 milhões de fotos (segundo Barsotti, empilhadas ergueriam 80 torres Eiffel). Para separar o joio do trigo é preciso o básico que não é para todo mundo: ser jornalista.
E para diferenciar a fina fronteira entre a atração de um jornalista para cobrir notícias e a morbidez de um abutre para, ele próprio, virar notícia, é bom conferir o papel de Juliette Binoche (Rebecca) em Mil Vezes BoaNoite (A Thousand Times Good Night, 2013), de Eric Poppe. Mãe de família bem casada na Irlanda com um biólogo, Rebecca enfrenta primeiro a crise do marido e da filha angustiados com suas ausências e seu trabalho de risco. Depois a sua própria crise interna quando é obrigada a optar entre o casamento, as filhas, a confortável vida doméstica e as perigosas coberturas em Cabul de mulheres-bomba ou na África de grupos rivais violentos. É mais forte do que ela, a notícia – real, não a fabricada – é um atrativo incontrolável para quem, ela explica à filha, já nasceu com esta “raiva”. “Há coisas das quais não se pode fugir quando você descobre quem você é.” Um eterno problema, intensificado quando a fotógrafa de guerra é uma mulher. Esta, sim, uma jornalista.
Jornalismo no telão
Tudo começou quando um cowboy tosco entra numa redação de jornal para punir o editor em 1900, em Horsewhipping an Editor, uma produção da Biograph. Daí foi um pulo para um jornalista surgir numa cidadezinha do wild westTruthful Tulliver, (1916, de William S. Hart), para um vaqueiro querer limpar uma cidade do Oeste perseguindo o jornalista local, em Red Courage (1921), ou para o cowboy usar o poder da lei e da imprensa para restaurar a lei e a ordem na fronteira em Grinning Guns (1927). Heroísmo, um repórter nova-iorquino derrota uma gangue de ladrões de joias no Oeste selvagem em The Diamond Trail (1933).
Bangue-bangues com o jornalismo como pano de fundo têm sua glória com o duplo de cowboy-cantor Roy Rogers, por mais de 10 anos, a partir de 1941. Seguem-se repórteres heróis, os infiltrados em quadrilhas de bandidos, os veteranos-ídolos, a mulher-repórter descriminada e tendo de enfrentar os mesmos problemas conjugais de Juliette Binoche em Mil Vezes BoaNoite, o jornalista em filmes de jornalismo-denúncia e jornalismo ético, as comédias, o jornalismo marrom, o jornalista de TV, o Clark Kent do jornal Planeta que vira Super-Homem em várias versões.
Não faltou nada desde que Hollywood descobriu; jornalista no telão tem carisma. Por isso a lista dos imperdíveis é interminável e inclui duas dúzias e meia – a maioria produção americana, e alguns europeus:
>> Aconteceu Naquela Noite (It Happened One Night, 1934) – Frank Capra
>> Correspondente Estrangeiro (Foreign Correspondent, 1940) – Alfred Hitchcock
>> Adorável Vagabundo (Meet John Doe, 1941) – Frank Capra
>> Cidadão Kane (Citzen Kane, 1941) – Orson Welles
>> A Montanha dos 7 Abutres (Ace in the Hole, 1951) – Billy Wilder
>> Janela Indiscreta (Rear Window, 1954) – Alfred Hitchcock
>> Suplício de uma Alma (Beyond a Reasonable Doubt, 1956) – Fritz Lang
>> Trágica Farsa (The Harder They Fall, 1956) – Mark Robson
>> A Embriaguez do Sucesso (The Sweet Smell of Success, 1958) – Alexander Mackendrick
>> O Homem que Matou o Facínora (The Man Who Shot Liberty Valance, 1961) – John Ford
>> Tudo Vai Bem (Tout Va Bien, 1972) – Jean-Luc Godard
>> Os Escândalos da Cidade (Un Linceur n’A Pas de Poches, 1973) – Jean-Pierre Mocky
>> O Passageiro – Profissão Repórter (1975) – Michelangelo Antonioni
>> A Honra Perdida de Katharina Blum (Der Verlorene Ehre Der Katharina Blum, 1975) – Volker Schlondorff
>> Todos os Homens do Presidente (All The President’s Men, 1976) – Alan J. Pakula
>> A Primeira Página (The Front Page, 1976) – Billy Wilder
>> Rede de Intrigas (Network, 1976) – Sidney Lumet
>> Síndrome da China (The China Syndrome, 1979) – James Bridges
>> Reds (1981) – Warren Beatty
>> Tinikling (1989) – Samuel Fuller
>> O Quarto Poder (Mad City, 1997) – Costa-Gavras
>> O Informante (The Insider, 1999) – Michael Mann
>> Capote (2004) – Bennett Miller
>> Boa Noite, Boa Sorte (Good Night, and Good Luck, 2005) – George Clooney
>> Mil Vezes Boa Noite (A Thousand Times Good Night, 2013) – Eric Poppe
>> O Abutre (Nightcrawler, 2014) – Dan Gilroy
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Norma Couri é jornalista

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