quarta-feira, 28 de agosto de 2013

JORNALISTA CONTESTA PRESIDENTE DA CÂMARA DE IMPERATRIZ



 Praia permanente no rio Tocantins?

 *por Domingos César
Jornalista Domingos César
Não tive como não achar graça quando li a notícia em O Progresso da última quarta-feira (28) dando conta que o vereador Hamilton Miranda (PSD) apresentou um requerimento – e foi aprovado, porém se eu fosse vereador sugeria seu arquivamento – solicitando ao Consórcio Estreito Energia – CEST a implantação ou construção no rio Tocantins, de uma praia permanente.


Na sua justificativa (?) o edil observa que cidades como Palmeirante (TO), Filadélfia (TO), entre outras, o poder público instalou no rio Tocantins praias artificiais (que não foram geradas pela natureza), para que essas cidades realizassem seus períodos de veraneio. Ele só não lembrou a seus pares, que essas cidades estão na montante (acima) da barragem da hidrelétrica de Estreito.


Pres. da Câmara, Hamilton Miranda
Imperatriz, por sua vez, encontra-se a jusante (abaixo) da barragem da hidrelétrica, razão porque sofre com a vazão de milhões de metros cúbicos de água, toda vez que as comportas de hidrelétrica são abertas. É por isso é que estamos sofrendo a consequência de sermos regidos agora, não pela Natureza, mas pela decisão dos técnicos da CESTE.

             
Na minha opinião, o que o vereador deveria ter feito foi o que fiz. Viajei duas vezes para Estreito, com passagens compradas com o dinheiro do meu parco salário, com o objetivo de participar das duas audiências públicas. Na segunda, fui o único representante da sociedade civil a se pronunciar, ocasião em que deixei bem claro as mazelas sociais e os impactos ambientais que o empreendimento causaria.

            
Enquanto o presidente do Consórcio mentia claramente prometendo estradas vicinais, escolas, creches, cinemas, teatros, quadras esportivas, delegacias de polícia, quartéis para os militares, o então senador Edison Lobão, a então deputada federal Terezinha Fernandes, o prefeito do município e uma cambada de deputados estaduais batiam palmas para ele.

             
Terminada a audiência fui ameaçado por um pequeno grupo de empresários, os quais, diziam que eu havia saído de Imperatriz para tentar barrar o desenvolvimento do município deles (Estreito). As ameaças não se tornaram em algo mais grave em face a intervenção de policiais militares, bem como, do deputado Antonio Pereira, que era meu amigo desde que morávamos em Açailândia.

            
Passados os anos, a hidrelétrica entrou em funcionamento, porém quando a primeira turbina foi ligada, o efeito causou a morte de cerca de 35 toneladas de peixes das mais diversas espécies. Foram enterrados com uma escavadeira dado a grande quantidade de peixe. Foi o maior desastre ambiental registrado em toda a história da bacia Araguaia/Tocantins.

             
Convidado pela Comissão de Meio Ambiente da Assembleia Legislativa do Estado do Maranhão, por intermédio do deputado Léo Cunha, fui um dos palestrantes da audiência convocada para debater o desastre ambiental com o Ibama, os diretores do CESTE e a sociedade organizada. Todos compareceram. O Consórcio não teve a dignidade de enviar um representante para a audiência.

            
Para finalizar, como viajor de dezenas de anos pelas águas do rio Tocantins, devo informar ao vereador que na época do inverno, o rio atinge cerca de 14 a 15 metros acima do nível normal. Registra-se que no ano de 1926 e 1980 o rio atingiu um nível muito superior que vem apresentando nos últimos anos. A presença das barragens não quer dizer que essas grandes enchentes não voltem a acontecer.

             
E a força dessas águas nobre vereador, quero apenas lhe exemplificar, são muitos fortes. Para se ter uma ideia, em dezembro do ano passado a força do riacho Santa Teresa rompeu a Rua Floriano Peixoto em pelo menos dez metros de largura. Agora o senhor já imaginou a força das águas do rio Tocantins no começo do inverno? Posso lhe garantir que não há praia que resista.

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   *Domingos Cezar, pescador e ambientalista, diretor conselheiro e ex-presidente da Fundação Rio Tocantins

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